Ir para o conteúdo

Chances na Previsão

Fazer uma previsão

O boi de 1906 e a sabedoria das multidões, a ideia por trás dos mercados de previsões

Um concurso de estimativas numa feira de gado inglesa mostrou como muita gente, errando para lados diferentes, pode chegar perto da resposta certa. É a lógica por trás da chance que um mercado de previsões mostra.

Por

Atualizado

O boi de 1906 e a sabedoria das multidões, a ideia por trás dos mercados de previsões
Foto: Autor desconhecido / Wikimedia Commons (domínio público)

Um mercado de previsões lê como probabilidade o preço que sai das negociações entre muitas pessoas, e essa leitura se apoia numa ideia estudada há mais de um século: estimativas independentes, somadas, tendem a ficar mais perto da verdade do que a maioria das estimativas isoladas. O exemplo mais citado é o de um boi numa feira agrícola da Inglaterra.

A chance de um mercado, portanto, não é a opinião de uma pessoa. É o resultado de muitas opiniões que se acumulam e se corrigem, e que se movem quando chega informação nova.

O que aconteceu na feira de Plymouth?

Num concurso realizado numa feira agrícola em Plymouth, na Inglaterra, os participantes tinham de estimar quanto pesaria um boi gordo depois de abatido e preparado. Muitos eram açougueiros e fazendeiros. Cada um escreveu a estimativa num cartão, e os cartões foram emprestados ao estatístico Francis Galton, que os analisou e publicou o resultado em 1907.

Foram 787 estimativas válidas. Galton chamou de “estimativa do meio” a mediana delas, o valor que deixa metade das respostas acima e metade abaixo. Ela deu 1.207 libras, e o peso real do boi era de 1.198 libras, uma diferença de 9 libras, menos de 1% do total. Individualmente, as respostas variavam muito: alguns chutaram alto demais, outros baixo demais.

Por que a multidão acerta?

Porque cada estimativa carrega duas partes, informação e erro, e os erros tendem a se anular quando há muitas respostas. É a explicação do escritor James Surowiecki, autor de “A Sabedoria das Multidões” (no original, The Wisdom of Crowds), que popularizou a ideia de Galton. Sobra o sinal que todos, cada um à sua maneira, captaram.

Surowiecki aponta quatro condições para o grupo julgar bem: diversidade de opiniões, independência de julgamento, descentralização (cada um usa o que conhece de perto) e um mecanismo que reúna tudo numa decisão coletiva. Em Plymouth, as respostas foram escritas em privado, sem influência de discursos, e a mediana fez o papel de agregador.

Quando a multidão erra?

Quando falta alguma dessas condições. Se as pessoas passam a repetir a opinião de quem está ao redor, a independência some e os erros deixam de se anular: caminham todos para o mesmo lado. Por isso a ideia não promete acerto. Ela diz que, nas condições certas, o conjunto costuma ser mais confiável do que a maioria dos indivíduos, e uma chance de mercado continua sendo uma estimativa, que pode falhar.

O que isso tem a ver com o preço de um mercado?

Num mercado de previsões, cada negociação funciona como uma estimativa. Quem acha que a chance de algo acontecer é maior do que a atual compra o Sim; quem acha que é menor compra o Não. O preço que resulta desses encontros é lido como a chance, o equivalente ao valor do meio de Galton, e se move conforme as pessoas incorporam novos fatos.

O mercado da Previsão sobre a inflação anual do Brasil em 2026 é quase um boi em versão digital, porque pede uma estimativa de número: qual será a taxa no fim do ano. Em vez de uma resposta única, ele reúne faixas, cada uma com a sua chance. Às 18h14 de sexta-feira (30/10), a faixa de 5,00% a 5,49% aparecia com 41%, a de 5,50% a 5,99% com 28% e a de 4,50% a 4,99% com 7%. A líder estava em 39% na terça-feira (27/10), foi a 45% na quinta (29/10) e marcava 41% na leitura de sexta.

Esse desenho mostra a multidão em ação: as chances se concentram em algumas faixas vizinhas e diminuem nas pontas, e o conjunto delas desenha o que os participantes, somados, esperam para a inflação do ano. O mercado encerra em 13 de janeiro de 2027. Como o peso real do boi em Plymouth, o resultado do ano é que vai mostrar quanto a multidão chegou perto.

A ideia só vale para bois e números?

Não. Um artigo científico publicado em 2015 retomou o trabalho de Galton para discutir a estabilização do uso de antidepressivos depois de décadas de alta. Os autores sugerem que a frequência estável pode refletir decisões de milhares de pessoas, tomadas a partir da experiência de cada uma, num tema em que os especialistas seguem divididos. É uma hipótese, não uma prova, mas mostra que a lógica de Plymouth continua sendo usada para pensar em populações inteiras.

Na prática, é assim que fica um mercado aberto agora: