Governo Trump prepara deportação de mais de 150 afegãos para o Afeganistão via Paquistão
O grupo inclui parentes de afegãos que ajudaram as tropas americanas; organizações de defesa de imigrantes dizem que eles podem sofrer represálias do Talibã, e o governo não comenta a operação.
Por André Carvalho
O governo de Donald Trump prepara a deportação de mais de 150 afegãos para o país de origem, com passagem pelo Paquistão, e já reuniu dezenas deles em centros de detenção da Louisiana, segundo o New York Times, que ouviu três autoridades americanas sob anonimato. Seria uma das maiores expulsões de afegãos feitas de uma só vez pelos Estados Unidos. Na lista há parentes de pessoas que ajudaram as Forças Armadas americanas antes da volta do Talibã ao poder, em 2021.
A rota pelo Paquistão contorna um obstáculo: Washington não tem relações diplomáticas com o Talibã e não consegue organizar deportações diretas para o Afeganistão. Na sexta-feira (30/10), num processo na Justiça federal da Virgínia, um alto funcionário do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) admitiu por escrito que um afegão tinha lugar num voo fretado com saída de Alexandria, no estado da Louisiana, e destino ao Paquistão, “com posterior transporte para o Afeganistão”, segundo a Associated Press.
Segundo documentos judiciais citados pela AP, os primeiros voos poderiam partir da Louisiana já na segunda-feira (2/11). A Human Rights First, organização que monitora esses voos, disse no sábado (31/10) ter confirmado um voo da Louisiana para o Paquistão na terça-feira (3/11). O Departamento de Segurança Interna afirmou que o ICE não comenta operações futuras de remoção, por razões de segurança.
Os detidos
Um deles é Mohammad, de 47 anos, identificado pelo Times só pelo nome do meio. Refugiado desde 1981, quando saiu do Afeganistão com a família aos 2 anos, ele perdeu a residência permanente nos EUA depois de cumprir pena por dois crimes graves. Mohammad é gay, casou-se com um americano em 2020 e diz correr risco num país onde a homossexualidade pode ser punida com a morte. “Temo pela minha vida”, disse ao jornal.
Outro afegão sob custódia do ICE relatou à Justiça, num processo diferente, que o Talibã o prendeu e o torturou em 2023 por causa da mulher, que foi soldado do Exército afegão, integrou a polícia feminina e ajudou as tropas americanas. Ele entrou nos EUA sem autorização em 2024 e teve o pedido de asilo negado.
Críticas e limites da lei
“Isso é absolutamente inconcebível”, disse Shawn VanDiver, veterano da Marinha americana e presidente do grupo #AfghanEvac, segundo a AP. A senadora democrata Jeanne Shaheen escreveu no X que o Congresso deve se opor ao plano. A lei americana proíbe deportar alguém para um país onde um tribunal tenha concluído que a pessoa muito provavelmente seria perseguida, e não está claro se algum dos afegãos da lista tem essa proteção, segundo o Times e a AP.
Governos anteriores também devolveram pequenos grupos de afegãos por meio de intermediários, mas só acusados de crimes graves, muitas vezes ligados a terrorismo. Nos últimos quatro anos, os EUA mandaram de volta cerca de 97 afegãos, segundo o Deportation Data Project, das universidades da Califórnia em Berkeley e Los Angeles.
O Paquistão, destino dos voos, tem a própria campanha de expulsões: desde 2023, mandou mais de 2 milhões de afegãos de volta ao Afeganistão, segundo o UOL. Nos EUA, a advogada de Mohammad, Melissa Medrano Henry, entrou com pedidos de emergência para impedir a deportação, que ainda esperavam decisão de um juiz quando o Times publicou a reportagem, na sexta-feira (30/10).



