Turquia leva à COP31 meta de 35% de eletricidade no consumo de energia até 2035
A anfitriã da conferência, de 9 a 20 de novembro em Antália, não diz se a eletricidade extra terá de vir de fontes renováveis; em 2025, carvão e gás geraram mais da metade da energia elétrica do mundo.
Por André Carvalho
A Turquia, anfitriã da COP31, quer que a conferência do clima das Nações Unidas adote uma meta global de eletrificação: até 2035, a eletricidade passaria a responder por 35% da energia consumida no mundo, ante 23,4% em 2025. A proposta deve estar entre os temas centrais da cúpula, de 9 a 20 de novembro em Antália, mas não define se o aumento terá de vir de fontes renováveis.
Em 2025, o carvão gerou 33,6% da eletricidade do planeta e o gás natural, 21,3%, segundo dados citados pela Folha: os dois combustíveis fósseis, principais responsáveis pelo aquecimento global, somaram mais da metade da produção. No Brasil, a eletricidade respondeu por 20,9% do consumo de energia em 2025, e 86,6% dela vem de fontes renováveis, segundo a Empresa de Pesquisa Energética.
A meta não entra nas negociações formais entre quase 200 países, que serão conduzidas pela Austrália, e não pela presidência turca, arranjo inédito nas COPs. Ela integra a Agenda de Ação, conjunto de compromissos voluntários de empresas coordenado pela Turquia.
Umit Sahin, do Centro de Políticas de Istambul, defende que a meta não abra espaço para os países ampliarem o uso de gás natural ou de energia nuclear. Taha Arvas, diretor-geral da Epias, que opera o mercado de energia turco, diz que ainda não há segurança energética sem fósseis. “A população não se importa com as metas de carbono, ela quer eletricidade”, afirmou à Folha.
O dilema da anfitriã
Do gás natural que a Turquia consome, 95% vem de fora; do carvão, 65%. As emissões do setor de energia do país dobraram entre 2000 e 2024 com a alta da demanda, e o governo, que promete neutralidade de carbono em 2053, não tem plano para reduzir o carvão. Alkim Bag, diretora do Centro de Transição Energética Shura, de Istambul, afirma que, “em termos de eletrificação, não avançamos muito: há vários anos, a taxa permanece em torno de 22%”.
A conta das exportações chinesas
Um estudo do Centro de Pesquisa sobre Energia e Ar Limpo, com sede na Finlândia, estima que painéis solares, turbinas eólicas, carros elétricos e baterias vendidos pela China a outros países devem evitar em 2026 a emissão de 450 milhões de toneladas de CO2, volume igual ao que o Brasil emite em um ano com combustíveis fósseis. Em 2025, as emissões evitadas tinham somado 370 milhões de toneladas. A análise saiu em reportagem da Reuters publicada pela Folha na quinta-feira (29/10). O governo chinês diz que as tarifas impostas a esses produtos viraram o novo obstáculo ao combate à mudança do clima e prometeu contestá-las na COP31.
A cúpula de chefes de Estado será em 11 e 12 de novembro, e até sexta-feira (30/10) 77 líderes tinham confirmado presença, segundo a Reuters, entre eles o presidente Lula, que vai entregar à Turquia a presidência da COP. Segundo a AFP, especialistas veem como pouco provável que a COP31 feche um acordo para abandonar carvão, petróleo e gás, com os mercados pressionados pela guerra no Oriente Médio.



