Irã e Catar redigem plano para reabrir Ormuz até dois dias após acordo com os EUA
A proposta foi descrita pelo chanceler iraniano no fim de semana de conversas em Doha e ainda não tem conclusão; Washington quer o programa nuclear na pauta desde o início, e Teerã cobra antes o fim do bloqueio aos seus portos.
Por André Carvalho
Negociadores do Irã passaram o domingo (1/11) em Doha, no terceiro dia seguido de reuniões com mediadores do Catar, e a reabertura do Estreito de Ormuz entrou na mesa com prazo. Em entrevista à Al Jazeera no sábado (31/10), o chanceler iraniano, Abbas Araqchi, disse que as duas delegações redigiram uma proposta para liberar a passagem em até dois dias depois de um eventual acordo com Washington. A guerra que Estados Unidos e Israel começaram contra o Irã em fevereiro já dura oito meses e tem atrapalhado a navegação comercial e o abastecimento de petróleo no mundo.
No domingo, Araqchi disse à mídia estatal que a discussão sobre a chamada “proposta de dois dias” seguia sem conclusão definitiva. Segundo ele, as conversas estão “em andamento e progredindo”, e o país está preparado tanto para “a defesa quanto para a diplomacia”. O chanceler disse esperar “racionalidade do outro lado”, para que a diplomacia tenha prioridade sobre as outras vias.
A negociação mudou de cidade no sábado. Na sexta-feira (30/10), os mediadores catarianos passaram mais de 12 horas reunidos com autoridades iranianas em Teerã; no dia seguinte, o trabalho seguiu em Doha. Segundo a Reuters, uma autoridade que acompanha a mediação afirma que as conversas são coordenadas em contatos regulares com Washington. O Catar conduz a mediação ao lado do Paquistão.
Duas propostas com prazo de sete dias
No domingo (25/10), o Catar entregou a Teerã uma minuta com um roteiro de uma semana: a cada dia, americanos e iranianos fariam um gesto para criar confiança antes de uma negociação de paz mais ampla, e vários países seriam fiadores do acordo. Um alto funcionário iraniano disse que Doha só apresentou “ideias inaceitáveis, e não uma proposta”.
Teerã tem a sua versão desde setembro, também com sete dias, que Trump vem rejeitando, segundo a Reuters. Por ela, Washington levantaria o cerco aos portos do país, descongelaria ativos iranianos e aceitaria uma rota de navegação em Ormuz patrocinada por Teerã; a reabertura viria depois. Araqchi disse à Al Jazeera que esse é o único plano em discussão para liberar o estreito.
O programa nuclear separa os dois lados
Os Estados Unidos querem o programa nuclear iraniano na pauta desde a primeira etapa. O Irã diz que antes precisa ver atendidas as suas condições, entre elas o fim do bloqueio aos portos e das sanções que travam a venda do seu petróleo, e nega que o programa tenha fins militares. Segundo a CNN Brasil, o funcionário iraniano afirmou que Teerã mantém a política de não mostrar flexibilidade na questão nuclear.
A eleição americana no caminho
Trump disse que não haverá novos ataques ao Irã antes das eleições de meio de mandato, na terça-feira (3/11), e chamou as conversas com Teerã de produtivas, mas não descartou ação militar depois da votação. No sábado, o secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que o presidente ainda não decidiu se volta a atacar, que prefere resolver o conflito pela diplomacia e que não sabe se há prazo para a mediação do Catar. Países da região avaliam que os ataques podem ser retomados logo depois da eleição, segundo a Reuters.
Há também um canal direto em aberto. Araqchi disse que o Irã analisa a carta que o vice-presidente americano, JD Vance, enviou no fim de outubro a uma autoridade iraniana de segurança, vista pelo New York Times e pelo Wall Street Journal como uma sondagem para retomar as negociações. Trump minimizou o gesto e disse que só aprovou a carta para discutir a entrada de mais suprimentos médicos no Irã. A primeira data a observar é a votação americana de terça-feira (3/11).



